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Capacitismo, racismo e machismo nos Esports

  • Foto do escritor: Lucas Lopes
    Lucas Lopes
  • 3 de mai. de 2022
  • 14 min de leitura

CAPACITISMO E INCLUSÃO SOCIAL NOS ESPORTS

Os esportes eletrônicos se mostraram uma potência econômica e social durante os últimos anos. A Partir de 2020, as transmissões começaram a atingir picos enormes de transmissões, chegando a 30 bilhões de horas transmitidas. Além disso, as transmissões de campeonatos chegaram a uma média de 16 milhões de telespectadores simultâneos apenas em 2021.


No entanto, o crescimento dos esportes eletrônicos não acompanhou a necessidade inclusiva que o cenário pedia. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, no Brasil, 45 milhões de pessoas apresentam algum tipo de deficiência, o que corresponde a 8,4% da população. Infelizmente, no país, ainda não se sabe o quantitativo de jogadores de games que sejam deficientes.


Entretanto, mesmo com a alta quantidade de jogadores que necessitam de aparatos resultantes da inclusão social, os games e os esportes eletrônicos caminham devagar para combater o capacitismo estrutural e incluir mais pessoas com deficiências físicas nos cenários.


Mesmo que importantes, os passos que a inclusão social vem dando dentro do cenário de esportes eletrônicos no Brasil ainda são pequenos. Criado em 2019 pelo jogador de Counter-Strike Gabriel ‘FalleN’ Toledo, o projeto Fallen e Amigos busca incluir pessoas com deficiência dentro com cenário de esports.



O Campeonato Brasileiro de League of Legends, o CBLoL, também iniciou sua caminhada na colaboração de um cenário mais inclusivo. Em 2022, a Riot Games Brasil, responsável pelo campeonato, decidiu incluir em suas transmissões uma tradutora de LIBRAS, a Língua Brasileira de Sinais.


Incluir acessibilidade no CBLOL foi um grande feito para a comunidade surda, principalmente por ser referência em transmissão para o competitivo”, afirma Keila ‘Arien’ Alcântara, tradutora de LIBRAS do CBLoL, entrevistada para esta matéria.


Keila ‘Arien’ Alcântara, tradutora de LIBRAS do CBLoL | Reprodução/Twitter @arientradutora


Arien afirma também que alguns campeonatos menores de outras modalidades têm investido em acessibilidade, como as transmissões de alguns torneios de VALORANT, CS:GO e Free Fire. Contudo, de forma oficial, ainda não existem outros campeonatos além do CBLoL que fazem tradução para LIBRAS.


Segundo Carlos Antunes, Head de esports da Riot Games Brasil, a decisão de adicionar a LIBRAS no campeonato veio da vontade de incluir uma parte da comunidade de esports que não estava sendo atendida. Além disso, outros campeonatos de outras modalidades pertencentes a Riot Games também irão receber a tradução simultânea para LIBRAS em suas transmissões.


Acredito que a inclusão nos esports de modo geral tem sido muito evidente de uns tempos pra cá. Os grupos que fazem parte de minorias sociais têm tido mais espaço [...]. Acho que é um caminho árduo mas que está sendo estabelecido, principalmente no Brasil. Sinto que estamos construindo uma identidade mais inclusiva e com mais oportunidades”, afirma Arien.


Apesar de ver os passos, mesmo que pequenos, de um cenário que está tentando incluir mais pessoas, é evidente o quanto que a desigualdade social se faz presente e se aproveita das lacunas presentes dentro do cenário de esports para atrasar o avanço da inclusão social na cena. De acordo com Arien, a falta de interesse por parte das organizações acaba sendo um dos motivos para esse atraso.


Apesar de existirem várias pautas sendo levantadas sobre as questões de gênero, raça, classe e pessoas com deficiência, não é tão comum encontrar organizações interessadas em fomentar a inclusão. Geralmente encontramos em datas específicas usadas para lembrar sobre o assunto em questão, e não diariamente.”, completa Arien, tradutora de LIBRAS no Campeonato Brasileiro de League of Legends.


Conforme Arien, o que pode ajudar no processo de inclusão social de pessoas com deficiência nos esports é o aumento de oportunidades e projetos voltados para essa comunidade. Ela também afirma que o gosto pela competitividade, o espírito esportivo e o amor pelos games e esports motiva qualquer pessoa a querer fazer parte do cenário profissional.


Não faltam pessoas capacitadas e/ou dispostas a aprender, falta mesmo é mais oportunidade e mais projetos voltados para emancipação da comunidade com relação aos padrões esportivos da visão de pessoas sem deficiência e de outros grupos de dominância social. Acredito que estamos fazendo o possível para que empresas e organizações voltem seus olhos para nós, para que possamos construir um espaço saudável e seguro para os que estão aqui e para os que virão depois”, completa Arien.


Todavia, a ausência de inclusão social dentro dos esportes eletrônicos não atinge apenas as pessoas com deficiência. Problemáticas estruturais que existem na sociedade brasileira, como racismo, machismo e homofobia, também se fazem presentes dentro do cenário.


Para essas questões, o caminho ainda é longo e necessita de atenção. Ser contra a maré preconceituosa que habita em solo brasileiro é querer transformar o cenário dos esportes eletrônicos, é querer mostrar que os games são inclusivos e acolhedores, e que, além de tudo, independentemente de suas características, os games e esports são para todas, todos e todes.


RACISMO NOS ESPORTS

A inclusão social dentro dos esportes eletrônicos é um desafio que atinge vários grupos identitários presentes no cenário. Por serem questões que não são exclusivas dos esports, grupos militantes vêm buscando cada vez mais a sua voz dentro do meio.


Apesar de lutarem por um espaço de respeito, muitos episódios de preconceito estrutural acontecem dentro dos esportes eletrônicos. Um caso emblemático é o de Franklin ‘Aoshi’ Coutinho, em 2016. Na época, Aoshi era jogador profissional de League of Legends e atuava pela CNB, time brasileiro da modalidade.


Aoshi era o único jogador negro do time, o que abriu margem para um show de racismo vindo por parte dos torcedores do time na época. Durante a transmissão pela internet, torcedores desaprovaram as jogadas de Aoshi e escancararam o espelho social que são os esportes eletrônicos, refletindo o racismo presente dentro da sociedade brasileira. Durante a transmissão de um jogo em que Aoshi participava, vários torcedores fizeram comentários racistas no chat.


Alguns dos vários comentários racistas feitos por torcedores durante a transmissão da partida | Reprodução/Facebook


Entrevistada para esta reportagem, a jornalista, mulher negra, streamer no canal na twitch Eitamanuela e caster de esports, Manuela Andrade, afirma que dentro do campo profissional dos esportes eletrônicos, como a narração, o cenário aparenta ser bem mais acolhedor. Ela relata que desde que começou a ser comentarista de campeonatos de League of Legends, não recebeu nenhum tipo de comentário racista ou machista.


Manuela Andrade, jornalista, mulher negra, streamer e caster de esports | Reprodução/Twitter @Eitamanuela


Ainda segundo Manuela, do que não se pode fugir é da parte estrutural das questões racistas do país. O racismo estrutural explica como a sociedade foi estruturada em cima do privilégio de algumas raças em detrimento de outras.


O filósofo, advogado, professor universitário, Silvio de Almeida, no livro ‘Como o racismo criou o Brasil?', afirma que o racismo é fruto da própria estrutura social do país e que afeta as relações políticas, econômicas, jurídicas e familiares.


O racismo é parte de um processo social que ocorre ‘pelas costas dos indivíduos e lhes parece legado pela tradição’. Nesse caso, além de medidas que coíbam o racismo individual e institucionalmente, torna-se imperativo refletir sobre mudanças profundas nas relações sociais, políticas e econômicas”, afirma o professor Silvio Almeida no livro.


Manuela explica que a comunidade do League of Legends, modalidade em que ela atua, aparenta ser bastante receptiva quando tratamos da diversidade dentro do cenário. No entanto, mesmo que receptiva, o racismo estrutural ainda se apresenta de forma sutil.


Temos a Sher Machado, influencer da INTZ, travesti e negra. Ela é influencer há bastante tempo. Porém a maioria das transmissões dela tem pouquíssimas pessoas. Coisa de 12, 15 pessoas. Já quando olhamos alguma streamer ou influencer branca, tem muito mais gente vendo, as coisas são bem maiores”, afirma Manuela Andrade.


Sher Machado, influencer da INTZ, travesti e negra | Reprodução/INTZ


De acordo com Manuela, o racismo estrutural também chega a se estender para além dos pro players. “Não posso falar por todas as pessoas, mas de todos os relatos que já ouvi, o que pesa é realmente o racismo estrutural. Se aparecer alguma vaga ou oportunidade, sempre acabam sendo dadas a pessoas brancas. Sempre dão oportunidades para as pessoas que estão dentro do padrão mais aceito na sociedade”, completa Manuela.


Apesar de ser um cenário reflexo da sociedade, Manuela afirma acreditar que existe uma pressão por parte das pessoas que acompanham os esportes eletrônicos pelas redes sociais. Essa pressão acontece para que as organizações consigam diminuir e agir efetivamente durante os episódios de racismo presentes no cenário.


Infelizmente, mesmo que exista uma pressão para que haja uma mudança significativa, as pessoas que lutam para que todo o cenário mude ainda fazem parte de uma minoria política e ideológica presente dentro dos esportes eletrônicos.


Recentemente tivemos uma premiação de esports em que a Sher Machado estava presente. Ela foi a primeira travesti presente ali e isso é maravilhoso, mas a gente sabe que existem muitas outras iguais a ela. Existem muitas mulheres trans e travestis que são importantes para o cenário. Existem muitas mulheres negras também importantes para o cenário. Por que apenas ela estava alí? Essa é a grande questão”, complementa Manuela.


Apesar de existirem os movimentos que lutam para que esses episódios deixem de acontecer, sabemos que não é o suficiente para que os casos de racismo presentes no cenário sumam. A partir disso, podemos nos perguntar: como as organizações podem atuar para que os casos de racismo deixem de existir ou ao menos diminuam dentro dos esportes eletrônicos?


De acordo com Manuela, a melhor forma de gerir a crise de preconceito estrutural é não dando brecha para que essa crise possa existir e se alimentar. Em outras palavras, a melhor maneira para que uma crise não exista é não dando margem para que ela possa nascer.


Para que isso aconteça, podemos partir de um princípio básico: a educação. Para que a educação possa ocorrer efetivamente, deve haver a identificação entre quem educa e o tema que será educado. “Você precisa ensinar a galera. Um branco não consegue educar inteiramente outro branco sobre racismo, por mais que ele se esforce. Precisam contratar pessoas negras. Como você quer que o racismo deixe de existir se você não dá voz e oportunidade para quem realmente sofre racismo?”, continua Manuela.


Entrevistado para esta reportagem, Nicholas Bocchi, advogado desportivo e ex-proplayer de League of Legends, afirma que as instituições e as desenvolvedoras responsáveis pelos campeonatos de esports usam seus poderes punitivos de forma desaponderada. Além disso, Nicholas também afirma que a gravidade das punições por parte dessas entidades também acaba sendo irregular. Enquanto infrações como as apostas dentro dos esports tomam punições severas, crimes como racismo acabam tendo punições mais brandas.


Se existe uma esperança de mudar o que acontece no cenário a respeito do racismo, é na uma efetividade maior na fiscalização e punição dos jogadores do dia a dia, e não necessariamente só jogadores profissionais, mas claro que esses devem ser usados como maior exemplo”, afirma Nicholas.


Para Manuela, as instituições não punem adequadamente os responsáveis pelos episódios racistas que acontecem dentro do cenários de esports. Para esses casos, as penalidades, de acordo com ela, devem ser feitas de modo mais severo, tanto por parte das organizações quanto das desenvolvedoras e responsáveis pelos jogos e campeonatos. “Se algum jogador famoso estiver em algum episódio racista, muito dificilmente a organização desligará ele”, afirma Manuela.


Contudo, pouco é debatido sobre o que deve ser feito quando casos do tipo acontecem. Para Nicholas, antes de focar em como os jogadores devem agir nesses episódios, o que os atletas precisam fazer é desenvolver uma gestão esportiva para que eles possam ser amparados.


Se os atletas não têm o poder político, quando acontecer um caso racista, eles também não terão um mecanismo de defesa para aquele caso concreto. A forma de agir, primeiramente, é garantir que os atletas tenham recursos para agir. Uma associação que represente os atletas e que tenha bons advogados e bons representantes é algo urgentemente para os jogadores”, complementa Nicholas.


As dificuldades a respeito do racismo estrutural presente dentro do cenário de esports se estende ainda em camadas mais profundas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, 54% da população brasileira são de pessoas negras, mas, quando olhamos para o cenário de esportes eletrônicos, notamos o total oposto dessa realidade.


Dos 50 jogadores principais dos times que disputam o CBLoL 2022, apenas 3 são negros. Isso acende um alerta para a desigualdade presente no cenário, mostrando como o racismo estrutural pode se apresentar sutilmente na área.


Você precisa ter uma quantidade significativa de pessoas negras atuando nos esports, para que se torne comum, se torne normal ter pessoas negras nesse tipo de nicho, para que as pessoas se habituem. Isso é extremamente absurdo, é extremamente problemático”, complementa Manuela.


Apesar de incentivar a inclusão de mais pessoas negras no cenário, Manuela também afirma que essa inclusão não pode ser feita de qualquer maneira. A inclusão deve ser feita não apenas com o propósito de preencher a ‘cota’ para negros dentro das organizações, mas sim de forma que o trabalho de inclusão se torne efetivo e impactante. “Não vai ser apenas um negro dentro das organizações que vai conseguir mudar tudo. ‘Pronto! Contratei um negro, acabou o racismo’, não é assim que as coisas vão mudar”, continua Manuela.


Segundo Manuela, as punições rasas dentro do cenário só corroboram com a continuação desses episódios racistas dentro dos esports. Quando uma organização não se posiciona de forma severa a fim de combater o racismo estrutural dentro do cenário, mais pessoas se sentem livres para realizar tais atos, já que as punições serão leves.


Há uns dias aconteceu um episódio de um jogador do CBLoL ter chamado todos os brasileiros de macacos. Estava claro na construção da frase dele o cunho racista. A punição que ele ganhou foi só ficar suspenso de 3 jogos e uma multa de R$ 5 mil para a organização em que ele atuava. Isso não é nada para uma organização atual. Isso não faz o menor sentido e é por causa de punições assim que os jogadores chegam aqui e fazem o que quiserem”, completa Manuela.


Para Manuela, uma grande ferramenta para a diminuição desses episódios é a educação. Educar é a chave para a mudança dos olhares e das percepções, e se não existe ninguém para colaborar e incentivar essa educação, a mudança não acontecerá.


Apesar de ser uma alternativa ‘clichê’, a educação é uma solução efetiva e que pode ser trabalhada a longo prazo. Além do mais, essa abordagem deve ser explorada para ser aproveitada juntamente com outros fatores que alimentam o cenário de esportes eletrônicos, como a fama. Aproveitar a fama e o engajamento dos jogadores e casters do cenário pode influenciar no impacto dessa educação dentro dos esportes eletrônicos.


A gente vai esperar que as coisas realmente se modifiquem por osmose? A gente precisa educar essa galera e em algum momento alguém vai ter que fazer isso. Beleza, tem a internet com vários artigos e tudo mais, mas a gente ainda precisa lutar e educar. Aproveita a fama de quem realmente entende e pode falar sobre. Pega a Lahgolas [Apresentadora negra do CBLoL e do CBLoL Academy], faz um vídeo com ela educando, abre um quadro com ela no CBLoL para falar sobre minorias políticas no cenário”, continua Manuela.

​Lei 7.716/89 define como crime praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, com pena de um a três anos de reclusão social acrescido de multa.

Racismo é crime e precisa ser tratado como um. De forma direta: punições mais brandas e mais efetivas dentro do cenário. As organizações responsáveis pelos campeonatos de esportes eletrônicos não podem mais abaixar a cabeça para esses episódios. Além disso, educar de forma efetiva o cenário e todos aqueles que o compõem.


Parafraseando Paulo Freire, ensinar não é apenas transferir conhecimento, mas também criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção. Porém, para construir um cenário de esports onde a educação é a base, devemos andar de mão dadas com a inclusão social. Só assim poderemos caminhar em direção a um cenário mais diverso, acolhedor e que possibilite mais oportunidades de mudanças de vida.


MACHISMO DENTRO DOS ESPORTS

Assim como o racismo estrutural se faz presente dentro do cenário brasileiro de esportes eletrônicos, o machismo proveniente da relação de poder entre homens e mulheres também pode ser visto. De acordo com dados da Rede de Observatórios de Segurança Pública, em 2021, a cada cinco horas uma mulher é vítima de violência no Brasil. Os dados também apontam que dos 1975 registros de violência contra a mulher em 2021, 409 foram feminicídios, termo usado para denominar assassinatos de mulheres cometidos em razão do gênero.


Sendo os esportes eletrônicos um espelho social do Brasil, a realidade não toma um rumo muito diferente. Nos esports, os casos de machismo acontecem aos montes e se estendem desde uma partida casual até times participantes de campeonatos importantes para as modalidades.


Um dos casos que mais abalou a comunidade dos esports foi o assassinato da proplayer brasileira Ingrid ‘Sol’ Bueno, no início de 2021. Sol era jogadora profissional de Call of Duty e sempre buscava aprimorar suas técnicas de jogo. Visando melhorar suas habilidades, Sol entrou para um time misto do game, contendo homens e mulheres, e acabou conhecendo aquele que seria seu futuro assassino, Guilherme Alves, conhecido no jogo como Flash Asmodeus.


Até o dia do assassinato, os dois players se conheciam pessoalmente havia apenas um mês. No dia do ocorrido, Sol havia ido à casa de Guilherme para jogar algumas partidas casuais. Entretanto, a jogadora acabou sendo assassinada com golpes de faca e espada. Após matar a gamer, Guilherme gravou um vídeo e compartilhou a imagem nas redes sociais admitindo o assassinato. No momento da prisão, os policiais também gravaram a reação do assassino. “Eu quis fazer isso”, afirmou, no vídeo gravado pelos policiais.


O machismo dentro dos esportes eletrônicos também se apresenta no dia a dia de jogadoras profissionais das mais diversas formas. Em 2015, Stella ‘Blurryface’, ex-diretora executiva do já encerrado Jaguares, time brasileiro de esports, começou a tentar trilhar seu caminho como jogadora profissional de Smite. Durante uma de suas transmissões, Stella acabou perdendo uma partida e, por causa disso, acabou sendo xingada por um dos jogadores.


O ato desagradou os telespectadores, que começaram a fazer denúncias anônimas contra o jogador e como consequência disso, ele acabou sendo banido do jogo. Apesar disso, essa história acabou tomando rumos diferentes. Após o banimento do jogador, várias pessoas começaram a xingar Stella, gerando uma onda de ódio em cima da jogadora.


Contudo, após o ocorrido, Stella decidiu então criar a Jaguares Esports, time com o intuito de incluir mulheres dentro do cenário de esportes eletrônicos no Brasil. Além disso, a Jaguares também buscava promover a inclusão de pessoas LGBTQIA+ e pessoas em situação de vulnerabilidade. Infelizmente, a Jaguares Esports encerrou suas atividades em 2021.


Eu sou xingada quando jogo mal, sou xingada quando jogo bem. Isso basicamente não importa para eles. Se você joga mal, eles se irritam e dizem que é porque você é mulher. Se você joga bem, eles também se irritam, porque fere o ego deles ver uma mulher jogando bem”, afirma Alice ‘Onlymikka’ Mesquita, streamer de VALORANT, em uma entrevista concedida para esta matéria.


Alice ‘Onlymikka’ Mesquita, streamer de VALORANT | Reprodução/Twitter @onlymikkattv


Segundo Onlymikka, a reprodução dos episódios machistas dentro dos esportes eletrônicos refletem parte da ideia de que as mulheres têm lugares específicos de atuação e não podem exercer atividades que são dominadas por homens. “Eles falam como se aquele não fosse o meu lugar, ou como se os jogos não fossem para mim, mas são”, completa Onlymikka.


Uma vez eu estava jogando uma partida de Valorant com uma personagem que pode ressuscitar outro jogadores. Teve um momento em que um dos jogadores queria que eu revivesse ele, mas não era conveniente e nem ajudaria o time naquele momento. Com isso ele ficou super estressado e acabou percebendo que eu era mulher. Ele simplesmente parou de jogar. Ele não tinha microfone, então ele me xingava por texto. Depois disso ele começou a jogar contra mim, a me sabotar o jogo todo e a me xingar de coisas terríveis. Parecia uma arma de ódio. Ele ainda falou que eu merecia ser estuprada”, relatou Onlymikka.


A streamer também disse que esse foi apenas um de vários episódios que já aconteceram durante suas partidas. De acordo com ela, em uma de suas lives, um cara chegou a perguntar se poderia urinar na boca de uma das suas amigas que estava jogando com ela. Confira abaixo um dos vídeos de assédio expostos pela streamer.

Onlymikka desabafa que sente a falta do posicionamento de muitos homens no cenário em relação a esses episódios. Ela afirma que já passou por episódios em que ela era a única mulher na partida e, enquanto sofria ataques machistas por parte de um jogador, os demais jogadores ficavam pedindo para ele parar, porém de forma muito branda, não demonstrando quase nenhum apoio à streamer ou oposição severa aos xingamentos.


A normalização de comentários machistas dentro de parte da comunidade masculina de esportes eletrônicos é, novamente, um reflexo do que pode ser visto na sociedade brasileira em si. Além disso, os episódios também refletem a transfobia presente no Brasil e como isso afeta diretamente os esportes eletrônicos.


Uma vez eu estava jogando com uma amiga minha e a internet dela estava ruim. Pronto, isso já abriu espaço para comentários extremamente machistas que desembocaram em uma enxurrada de transfobia gratuita na partida”, relata Onlymikka.


A streamer também pontua que muitas vezes as atitudes preconceituosas vindas por parte dos jogadores, por causa da normalização intrínseca desses comentários, acabam tendo sua gravidade diminuída intencionalmente. Onlymikka explica que, por muitas vezes, as pessoas que fazem essas ações preconceituosas são vistas como pessoas mais imaturas, que não desenvolvem responsabilidade a respeito de questões sociais. Entretanto, a pergunta que fica é: até quando irão passar a mão na cabeça daqueles que cometem tais crimes?


Claramente pessoas assim não estão preparadas para estar em um grupo com mais pessoas, com mais diversidade. Se pessoas assim não têm o mínimo de respeito, elas não estão preparadas para socializar”, continua Onlymikka.


No entanto, a streamer também pontua que não vê nenhuma entidade do movimento feminista atuando diretamente dentro dos esportes eletrônicos para combater o aumento de casos de machismo. Porém, ela diz que já existe um movimento que atua na inclusão mais efetivas de mulheres dentro do cenário.


Onlymikka completa afirmando que as organizações e desenvolvedoras necessitam aplicar punições mais severas aos responsáveis por esses episódios de machismo dentro do cenário. “Às vezes só deixam a conta dos culpados suspensa por uma semana. Isso vai adiantar de que? Expulsa esse povo do jogo, faz com que eles percam todo investimento no jogo, processa. Precisamos de punições mais efetivas e que realmente causem impacto, que façam com que eles entendam. Isso é crime, deve ser tratado como um”, encerra Onlymikka.


Assim como a educação atua diretamente no combate do racismo estrutural presente nos esportes eletrônicos, ela também deve atuar na luta contra o machismo dentro do cenário. Porém, a inclusão de mais mulheres nos esports deve ter uma iniciativa maior vindo das organizações, valorizando, assim, o cenário feminino das modalidades de esports.


Denominar que os esportes eletrônicos são exclusivamente para o público masculino das modalidades presentes é uma afirmação conservadora demais para se encaixar dentro do universo dos games e esports. O avanço social deve estar presente em todos os alicerces do cenário brasileiro, já que apenas assim podemos caminhar para uma cena mais inclusiva, acolhedora e que está disposta a combater os males da sociedade.

 
 
 

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Trabalho de conclusão de graduação de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Recife, Pernambuco, Brasil

Maio de 2022

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